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Christian TissierEu estive tentando realizar uma entrevista com Christian Tissier Shihan (7º Dan Aikikai, Presidente da Federação Francesa de Aikido FFAAA) por algum tempo. Eventualmente, graças a sua boa vontade e gentileza, isso se tornou possível. Há muito poucas entrevistas com ele publicadas em inglês (muito menos, traduzidas para o português), portanto achei que seria uma excelente forma de introduzir o Sensei para os praticantes de Aikido de língua inglesa.
Após uma aula matinal altamente dinâmica, nós nos encaminhamos a um almoço muito agradável com Christian Tissier e alguns membros do comitê da AFA em uma bela Brasserie (tipo de restaurante) em Bruxelas. Lá nós tivemos uma conversa informal e os dois Shihan do dia (Christian Tissier tinha acabado de certificar Dany Leclerre com esta graduação em nome do Doshu Moriteru Ueshiba naquela mesma manhã) que compartilharam varias histórias engraçadas sobre os seus vários anos de prática. Depois voltamos para as aulas da tarde e apenas no final da tarde que Ivan (meu colega da Aikidoka Magazine) e eu nos reunimos com Sensei novamente em seu vestiário para finalmente podermos perguntar todas as questões que a havíamos preparado por muito tempo. Ele focou seus intensos olhos azuis a nós, nos dando completa atenção por mais de uma hora (quase esquecendo de pegar seu vôo no processo...). Ele respondeu as questões com grande precisão e com extrema franqueza, o que deixou a entrevista ainda mais interessante e agradável. Nós focamos principalmente nas especificidades de seus ensinamentos como também na organização e funcionamento geral do Aikido. Eu gostaria particularmente de agradecer Dany Laclerre Shihan, François Warlet e Paul Van Lierde da Associação Francophone d'Akido pela sua ajuda e calorosa recepção na Bélgica.

Guillaume Erard: Em vez de falarmos novamente sobre sua juventude e estada no Japão, vamos investigar seu treinamento um pouco mais. Quando alguém vê você executar uma técnica de Aikido, a amplitude a graça de seus movimentos é o que chama a atenção em primeiro lugar. A estética do movimento é uma parte importante de sua pesquisa?

Christian Tissier: Não, no Aikido, nós treinamos para alcançar a pureza através dos gestos em decorrência das restrições físicas representadas pelo parceiro/adversário. Como conseqüência, logo que o conflito está para ser resolvido, manter em mente a pesquisa em torno precisão, posicionamento e economia, fará o movimento chegar próximo a pureza. Se ele é puro, então será natural e conseqüentemente é belo. Como você pode ver, a estética não é o objetivo por si só. Aikido é uma disciplina marcial, mas também é uma arte, e usando o corpo em sua perspectiva, devemos trabalhar na pureza do movimento. A estética é resultado final desse trabalho.

Christian Tissier et Guillaume Erard

Christian Tissier y Guillaume Erard

Ivan Bel: Quando você pratica, você parece completamente relaxado. Na verdade, durante o seminário que o senhor acabou de ministrar, você mostrou que quando somos bloqueados por um Uke, podemos conservar esse estado de relaxamento apenas por alterar para outro movimento.

Christian Tissier: Isso não é inteiramente verdade. Meu conceito sobre arte marcial é, que se ocorre um bloqueio, nós não devemos dizer "Não posso fazer isso, portanto devo fazer alguma outra coisa". Na verdade eu tento fazer o oposto, se há alguma dificuldade, eu não tento evitar, mas no lugar eu tento encontrar uma solução apropriada tentando mudar o angulo ou a postura, mas não a técnica. Isso é o que eu estava tentando mostrar a vocês durante o seminário, em particular no Kotegaeshi. Freqüentemente nesta técnica, nós sentimos que não podemos prosseguir por um sem número de razões. Ao ponto que não podemos ir adiante na técnica, não havendo sentido em tentar, significa que chegamos ao fim daquela ação, sendo assim, uma outra ação teve que ser iniciada como resultado e não devendo tentar escapar do contato.
Para responder sua questão sobre o estado de relaxamento, um dos objetivos do Budo é a supressão dos medos. Querer ser mais forte que todo mundo não tem sentido. Nós devemos apenas trabalhar na superação dos nossas próprias apreensões. É por isso que o sistema de educação que nós adotamos ao lecionar uma aula de Aikido tem por objetivo a supressão das situações de recusa, exclusão e não comunicação. O quanto mais eliminamos esses medos, mais vamos sentir facilidade de ir em direção aos outros, mas não significa de forma alguma que nos tornamos invencíveis. Na minha opinião, uma técnica bem trabalhada e pura nos permite trabalhar melhor a nós mesmos e dispara uma forma mais fácil de nos comunicarmos através do movimento. O relaxamento cresce a partir disso.

Guillaume Erard: Sobre a comunicação, você põe uma ênfase em particular no relacionamento que deve existir entre Uke e Tori, onde ambos devem ajudar o máximo o outro a melhorar. Mas isso de certa forma freqüentemente é tido como conivência.

Christian Tissier: Vendo coisas como essa mostra uma interpretação muito simplista desse relacionamento. Não pode haver um sistema de ensino sem que existam códigos. Se nós decidirmos em jogar Tênis juntos, eu não vou apareceu com um taco de Baseball, dessa forma vai ser muito difícil de jogarmos juntos. Qualquer que seja o sistema, precisaremos definir códigos. Nós vestimos Keikogi branco, esse é um código; nós praticamos no Tatami, esse também é um código. Então nós decidimos executar um Katatedori a partir de uma posição estática, esse também é um código, não há ação. Nós não puxamos ou empurramos, nós deixamos o parceiro executar a técnica. Nós estabelecemos os códigos desde o início e baseado nesses, nós organizamos a estrutura da técnica.
Obviamente no início, provavelmente não haverá quase nenhuma sensação. Por exemplo, nós vamos falar sobre Tekan ligado ao centro, mas no início, veremos apenas um pivô e talvez a idéia dos dois parceiros olhando na mesma direção, mas nenhuma conexão na verdade. Agora, se você trabalhar com um Uke que é melhor que você, ele pode por você em uma situação onde você pode entender o que exatamente você está procurando.

Ao fim do dia, o que mais interessa para mim é poder treinar com pessoas, cujos códigos são diferentes dos meus e fazer funcionar apesar destas diferenças. É por isso que gosto de praticar com pessoas que eu não conheço, iniciantes, pessoas altas, pessoas grandes, karatekas, judokas e assim por diante. Eu gosto de praticar com todo mundo porque isso pode mostrar que a técnica pode funcionar sem códigos: está é a aplicação da técnica. Mas antes de chegar a isso, o processo de aprendizado precisa depender desses códigos.

Claramente há sistemas de educação que são completamente diferentes do meu. Alguns são muito estreitos e precisos, mas muitas vezes tão presos aos seus próprios códigos que não conseguem se libertar deles. Isso é uma pena...

Stage à Dublin, Juin 2007

Ivan Bel: Constantemente nos falam que Aikido é baseado em dois grandes princípios: Irimi e Tekan. Observando você, me parece que você enfatiza muito o último com grandes movimentos em espiral. É uma escolha sua ou apenas o caminho que melhor se ajusta a seu corpo?

Christian Tissier: Francamente eu tenho a impressão que eu estou praticando o Aikido de Irimi. A confusão pode vir do fato de que nós nem sempre temos a mesma noção de Irimi. Irimi não né sobre esbofetear o parceiro na cara toda a vez que ele move ou deixa uma abertura. Para mim, irimi é chegar ao amago (ou centro) do movimento. A sensibilidade Ma durante a prática vem muito do Kenjutsu (Kashima Shin Ryu) e esse tipo de trabalho é muito direto. Mas também, depende da definição de cada um de irimi e tenkan mas eu realmente penso que física e mentalmente, meu Aikido é mais irimi do que é tenkan.

Sobre a espiral, é novamente um movimento de Irimi. A espiral tem um núcleo; dessa forma, toda a vez nós vamos encontrar uma posição ideal sobre cada volta, nós vamos ganhar velocidade e ficar em volta do centro. No final, nós entraremos em direção ao parceiro. Neste momento em particular, nós estamos totalmente irimi!

Guillaume Erard: Você constantemente diz que Aikido é um sistema de educação baseado em uma disciplina marcial. De acordo com você, o que as pessoas desenvolvem através da prática dessa disciplina?

Christian Tissier: Bem, isso varia muito de acordo com cada individuo, mas nós falamos de Aikido em termos de sistema de educação, nós não podemos esquecer da base marcial. Esse aspecto marcial foi especificamente escolhido. Poderíamos ter escolhido pintura, escultura, Zen e muitos outros coisas. O que muitas vezes atrai as pessoas em direção a artes marciais é o sabor da luta e o confronto. Numa disciplina marcial, há noções intrínsecas de restringir e perdoar (liberar). Nosso sistema de educação, que objetiva nos evoluir como seres humanos, vai se basear nesse contexto marcial. Cada erro deve ser perdoado, ou pelo professor ou pela impossibilidade de executar a técnica porque já estamos no chão, nós ganhamos uma chance de iniciar de novo. Nós devemos tirar vantagem dessa nova chance, não para repetir o mesmo erro, mas para executar um movimento em que esse erro em particular seja eliminado.

Eu não concordo com pessoas que dizem que progresso é fazer sempre melhor. Para mim, progresso significa cometer menos e menos erros, aperfeiçoar nossos movimentos e não apresentar aberturas. A essência do Budo é a ausência de aberturas, waki ga nai, que significa nunca deixar uma abertura, tanto por nossas ações quanto por nossas palavras. Em um dos meus livros, eu copiei a seguinte citação de uma escola de etiqueta chamada Ogasawara. No portão principal dessa escola estava escrito: "Quando você está corretamente sentado na posição ideal, nem a pessoa mais rude pode te incomodar".

É o nosso comportamento que nos permite não deixar aberturas. A educação marcial oferece o que eu chamo "constantes do Caminho" que são: atitude, gerenciamento da distância e visão. Estas 3 constantes trabalham juntas. Não é difícil de por em prática, nós podemos facilmente dizer que isso é arte marcial mas nada ainda aconteceu: nós não estamos dentro do movimento. Para poder entrar no movimento, nós precisamos invocar outro princípio natural, a técnica. Porque isto é um princípio natural? Porque desde o início, as pessoas tentam desenvolver técnicas para executar tarefas mais facilmente e eficientemente. A noção de técnica não pode desprezar as outras noções naturais. Desta forma isto é algo que se adiciona. Uma técnica bem aplicada cria uma economia de movimento e energia. O princípio de economia também é natural. E é isso que devemos tentar alcançar.

Sobre tudo isso, você pode adicionar princípios como a comunicação, a pesquisa da pureza, etc. Eu realmente penso que existem princípios de Aikido que ainda não foram descobertos, mas que são igualmente naturais e que nós teremos que adicioná-los ao nosso sistema educacional para enriquecê-lo.

Christian Tissier et Guillaume Erard

Christian Tissier y Guillaume Erard

Ivan Bel: Sobre os princípios naturais, nós sempre ouvimos sobre o KI, o fluxo de energia. Você não fala muito sobre ele...

Christian Tissier: Não mesmo. A razão é porque se trata de uma noção que confunde muito. Eu já vi muito coisa em Aikido, eu já encontrei um bom punhado de Senseis e eu devo dizer que os que mais falam sobre isso são os que em geral tem a técnica mais fraca. Claro, isso não é verdade para todos, mas o Ki não é tangível. Ki está dentro de nós. Existe Ki em todo o lugar, mesmo que saibamos como utilizá-lo ou não. A questão fundamental sobre Ki é o fluir ou fluxo. Em termos de Aikido, nós temos Ki e Kokyu, que significa o veículo para o Ki. A tradução de Kokyu é "respiração" mas para ser mais preciso, em realidade, Kokyu é a troca entre os dois.

O resultado é que se você praticar com seus ombros travados até as orelhas, o Ki não vai fluir, qualquer praticante de acupuntura vai dizer isso para você. E como conseqüência, até a técnica estar perfeita, não haverá Ki, não haverá fluidez natural. Para mim, pessoas que realmente tem Ki não o sentem porque tudo acontece de forma natural para elas.

Nós obviamente poderíamos desenvolver exercícios como os propostos por Qigong para trabalhar especificamente a respiração. Nós podemos também trabalhar especialmente em flexibilidade e outras coisas, mas para que propósito? Eu considero Aikido como sendo todo um sistema que foi bem pensado. Dessa forma é inútil se concentrar em apenas um aspecto da arte, em particular se for em detrimento do tempo de treino. Se precisarmos especificamente trabalhar em flexibilidade, podemos ir a um especialista, o mesmo para respiração, mas não devemos sair misturando tudo.
Para retornar ao assunto do Ki, eu prefiro não falar muito sobre isso porque penso que discursos sobre esse assunto em geral dão noções errôneas.

Christian Tissier et Guillaume Erard

Christian Tissier y Guillaume Erard

Ivan Bel: Dessa forma então seu foco é apenas na técnica.

Christian Tissier: Isso é verdade, pois a técnica é a chave para destravar o corpo! Uma vez que você tenha destravado o corpo e removido todos os medos, os movimentos serão fluidos e isso vai permitir um maior kokyu. Se você adiciona intenção a esse kokyu, o Ki vai ocorrer naturalmente.

Guillaume Erard: Todos sabem que você tem uma forte ligação com Seigo Yamaguchi Sensei; entretanto, você desenvolveu um estilo que é bem diferente do dele, aparentemente.

Christian Tissier: Em verdade, existem dois mestres que influenciaram profundamente minha prática. O segundo Doshu (Kisshomaru Ueshiba) foi um importante modelo para mim, em particular para as técnicas básicas. E igualmente devo muito a Yamaguchi Sensei, tecnicamente, claro, mas também muitas outras coisas como liberdade, aplicações e rigor. Ele e eu, tivemos um tipo de relação de pai e filho a um nível que ao fim de sua vida, ele quis comprar uma casa no sul da França para poder viver próximo a mim.

Para responder sua questão, eu não sei se faço as coisas como ele ou não, esse não é meu propósito como professor. De fato, ele não queria que fossemos escravos de sua técnica e ele não estaria feliz se eu tivesse me tornado um clone dele. Eu, principalmente, integro os princípios que ele me ensinou.

Guillaume Erard: Em geral ouvimos sobre a dicotomia do Aikido de pré e pós-guerra. Em totalidade, você é um dos principais atores para a evolução do Aikido na França e afora. Na sua opinião, o que mudou no Aikido?

Christian Tissier: Eu acho essa questão muito divertida porque quando eu retornei do Japão, as pessoas me disseram que o que eu estava fazendo estava diferente. O fato que eu acabava de voltar de 7 anos no Aikikai. Da minha perspectiva, são as pessoas que ficaram na França que estavam fazendo algo diferente. Eu estava apenas repetindo o que eu havia aprendido no Hombu Dojo, Eu não inventei as técnicas. Ainda mais, eu havia sido reconhecido pelos meus pares na idade de 24, estudantes diretos do Doshu e muito ligados a Yamaguchi Sensei, então eu realmente não penso que eu tenha sido um ator das mudanças na prática do Aikido. Não se deve confundir o que pensam que é Aikido e o que é realmente praticado no Aikikai.

Quando eu cheguei no Japão, eu era segundo Dan de Mutsuro Nakazono Sensei e eu participei de todos os cursos de verão de Nobuyoshi Tamura Sensei então eu pensei que eu tinha um nível razoavelmente bom. Assim que cheguei no Hombu Dojo, logo que eu vi o Doshu Kisshomaru Ueshiba, eu realmente fiquei em dúvida sobre o que ele estava fazendo. Era muito diferente e todas as minhas certezas foram desafiadas e corrigidas. de fato, devo dizer que no início, eu não gostei do que eu vi quando eu encontrei o Doshu, eu achei que ele estava tropeçando. Obviamente eu estava errado; eu apenas conhecia o que eu estava acostumado. Estas discrepâncias entre o que pensamos que sabemos e o que realmente é; é o que nos faz pensar que houve uma evolução.
Existe entretanto um tipo de evolução ocorrendo, é a evolução do professor durante sua vida. Lembro de Miyamoto Sensei na época lá no Japão; ele apenas praticava para destruir seu oponente. Ninguém exceto o grupo em que eu estava queria treinar com ele. Hoje em dia, ele é um homem bonzinho que se preocupa com seus Ukes no tatame, mas, obviamente ele tem 60 agora. Ele mudou, assim como todo mundo. O que quero dizer é que quando temos 20 anos de idade, temos que nos comportar como pessoas de 20 no tatame, mas temos que aceitar que mudamos com a prática, status e idade, é claro.

Doshu Kisshomaru Ueshiba Embukai (Uke: Moriteru Ueshiba, Christian Tissier, Hayato Osawa)

Para finalizar, claramente Aikido, como qualquer outra disciplina, tem uma evolução. Se comparamos os Ukes do início com as pessoas de hoje, a diferença é significante. É fácil explicar porque os Ukes do início eram judokas. Hoje, os praticantes se movem mais livremente, mais espontaneamente, mais rápido, é claro. A técnica não é a mesma que no início. Vou tentar explicar o que quero dizer. Quando eu era criança, quando até mesmo um karateka medíocre estava desferindo um mawashi geri na face de um oponente, nos deixava em admiração. Hoje em dia, as crianças estão tão acostumadas a vídeo games e filmes que se acostumaram a ver o personagem a dar seis giros antes de um chute. Jovens portanto são mais difíceis de se impressionar, eles vivem em uma fantasia sobre artes marciais que não representa mais a realidade. A imaginação mudou igualmente à concepção das técnicas e de suas aplicações. Isso é normal e o Aikido muda seguindo esse princípio.

Não podemos dizer que o Aikido é fixo; ele muda constantemente, graças a Deus por isso, de outra forma, se os estudantes não se tornarem melhores que seus professores, em 50 anos, não haverá mais Aikido! O que não muda são os princípios.

Ivan Bel: Sobre as fantasias em que as crianças que jogam vídeo games precisam lidar, você acredita que existe alguma falha nas novas gerações em termos de atitudes e valores?

Christian Tissier: Francamente, eu não sei. Talvez seja o caso, mas eu acho que os jovens que vem para o Aikido entendem bem a diferença. Para começar, eles aceitam um número enorme de regras que não necessariamente aceitam em casa ou qualquer outro lugar. Então respeitam etiqueta, vida em comunidade e vem para o treino regularmente. Talvez nós parecemos dinossauros para eles, mas o mais importante é o comportamento que nós temos e o exemplo que passamos. Se, como professores, nós somos capazes de detectar uma criança talentosa e dedicada, eles também são capazes de perceber se você é um modelo a ser seguido, se você tem uma autoridade natural ou se você é apenas um velho idiota. Na minha opinião, a chave do sucesso é estar apto a entregar mensagens para os jovens sem termos que agir como crianças.

Devemos ser honestos e diretos, isso é tudo. Nos termos da prática, é errado acreditar que as crianças não estão prontas para se esforçar e se fazer alguns sacrifícios. Uma criança que pratica seriamente tektonik ou break dancing vai entregar tanto esforço quanto uma que pratica Aikido. Ambos são igualmente difíceis!

Ivan Bel: Agora vamos conversar um pouco sobre política. Você acabou de reconhecer com um dos altamente raros títulos de Shihan, que são dados a não japoneses, ao seu amigo Dany Leclerre (7th Dan da Bélgica). Você foi o primeiro não japonês a receber tal distinção, isso te trás algumas memórias?

Christian Tissier: Bem, a verdade é, que para mim a coisas não são tão simples. Quando eu era 6th Dan, nada era formalizado, eu estava, algumas vezes, recebendo cartas, tanto do Aikikai ou de Endo Sensei onde me referiam como "Tissier Shihan", mas não era claro, pois o título não era oficialmente entregue naquela época. Depois de um tempo, uma polêmica começou a aparecer, originada de um artigo publicado na revista Aikido Today (revista Americana editada por Susan Perry entre 1983 e 2005, vendo seu fim após 100 edições) onde Mitsugi Saotome Sensei e outros Shihan davam sua opinião sobre o assunto. A partir disso, o Aikikai decidiu deixar tudo as claras oficializando o título.

O título de Shihan é igualmente designado a um país como a um indivíduo. Hoje, nós entregamos a Bélgica através de Dany Leclerre, um tipo de agradecimento a tudo que ele fez pelo Aikido, mas também uma forma de informar a todos que ele é a pessoa responsável por transmitir o Aikido em seu país. Isso não significa que ele poderá graduar as pessoas pelo mundo. Entretanto outros podem fazer isso, cada caso é diferente. Ainda é um negócio meio que complicado...

Christian Tissier and Guillaume Erard

Christian Tissier y Guillaume Erard

Guillaume Erard: Até onde sabemos, existem aproximadamente 15 Shihan não japoneses que foram oficialmente reconhecidos pelo Aikikai, esse número é meio pequeno. Os japoneses são muito protecionistas?

Christian Tissier: Realmente são poucos. Claro que eles estão sendo protecionistas, em função do Aikikai em primeiro lugar. Todos sabem que você precisa esperar algum tempo entre as graduações de Dan. Essa regra se aplica a todo o mundo com exceção dos uchi-deshi Japoneses [estudantes residentes] do Hombu Dojo... Este são da casa e assim que eles viajam para fora são rapidamente promovidos. Em todo o caso, isso faz parte do jogo, e nós sabemos quem é quem e isso não provoca nenhuma surpresa. Todos conhecem o valor de todos. Eles também se conhecem como também o que esperar de mestres não japoneses.

Ivan Bel: Com o nível geral das habilidades aumentando pelo mundo, vai existir um momento em que não precisaremos mais do Japão?

Christian Tissier: Sim, agora nós podemos fazer sem o Japão tanto quanto o Japão pode fazer sem a gente. Entretanto, eu considero importante não subestimar a interação que existe entre os dois. Por exemplo, o Japão não conseguiria sem nós no assunto de difusão do Aikido, sem por exemplo nossas organizações nacionais e a federação internacional que dá credibilidade além de suas fronteiras. É importante se dar conta de que um Sensei no Japão é apenas conhecido pelo seu dojo e pelos seus estudantes. Não pense que estes ensinam em seminários com 300 pessoas, longe disso. Eles precisam vir a Europa para ver isso acontecer. Para um jovem professor em seus 50 anos, vir para a Europa é um enorme ganho de credibilidade para ele. No nível técnico, nós somos igualmente competentes para ensinar Aikido na Europa e nos EUA, mas eu acho sempre interessante voltar as origens porque o tipo de ensinamento é diferente. O que falta nos japoneses é a análise sistêmica do Aikido. Felizmente, nem todos são assim, mas em geral, pedagogia não é seu ponto forte! Se você perguntar porque uma técnica é desse ou daquele jeito, eles vão apenas responder "porque é assim". Esse é o tipo de resposta típica que você recebe no Japão. Como conseqüência, um Sensei de 8o Dan do Japão iria provavelmente falhar no Brevet d'Etat [qualificação da técnica Francesa] aqui. Eu freqüentemente discuto sobre isso com Seishiro Endo Sensei. Mesmo ele sendo meu Sempai, ele as vozes me questiona se essa ou aquela técnica existia na versão Ura. Nossa lógica pragmática e senso crítico nos permitiu bem cedo a desconstruir as técnicas e a classificá-las. Nós agregamos muito aos japoneses nesse aspecto.

Em oposição a isso, nós não temos a mesma cultura e não temos o mesmo modo de lidar com os problemas. Os japoneses permitem que você se questione em vários conceitos sutis e isso é um grande caminho para o progresso. O japonês obriga você a questionar pois ele sempre obriga a você reconsiderar o que você sabe.
Para resumir, sim, poderíamos nos virar sem o Japão e ambos perderiam muito.

Christian Tissier and Philippe Gouttard

Christian Tissier y Philippe Gouttard

Guillaume Erard: Vamos falar sobre a FFAAA (French Aikido Federation). As pessoas realmente não sabem qual é sua posição na organização. Alguns dizem que você é o chefe da federação. Qual exatamente é seu papel?

Christian Tissier: Para ser claro, eu estive na origem da FFAAA. Eu inclusive escolhi o nome. Sem mim, ela não existiria. Com isso dito, eu realmente não intencionava em criá-la e não sou tão orgulhoso dela também. Aconteceu principalmente pelas circunstâncias daquele momento. Naquela época, o Aikido era parte da federação de Judo [FFJDA]. Eu tive uma reunião em minha casa com Tamura Sensei e enquanto estávamos a mesa comendo ele me perguntou: "Se nós deixase-mos a FFJDA, você iria comigo?" No início, eu estava inteiramente de acordo, mas logo me dei conta que era de fato uma manobra política entre posições altamente disputadas. Eventualmente, eu não segui o movimento, mas não era para ficar contra ninguém. Apenas era o jeito com que aconteceu que me desgostava. Eu acho que a separação da FFJDA (verificar não) foi um erro. Nós tínhamos várias vantagens de estar com eles em termos de instalações e eventualmente teríamos nossa independência, como o Karate com a FFKAMA [Federação Francesa de Karate] mais tarde, o Taekwondo com a FFKAMA. Nós precisávamos apenas crescer e em harmonia para conquistar nossa independência naturalmente.

Depois da separação, eu fiquei mais ou menos sozinho. Os jovens instrutores a minha volta como Philippe Gouttard era apenas 2o e 3o Dan. Nós fomos realmente uma federação de crianças (risadas). Isso foi em 1982, e mesmo assim eu era apenas um pouco melhor tecnicamente, eu tinha 31. Umas poucas pessoas que também não gostaram de como tudo ocorreu acabaram ficando comigo como Paul Muller ou com Lois Clériot entre outros. Nós então chamamos Jacques Abel e estruturamos a federação. Pierre Guichard, que era o diretor técnico nacional de Judo e sucessor de Courtine veio até mim e perguntou se eu queria ser o diretor técnico nacional de Aikido. Isso foi uma proposta muito grande, era um cargo ministerial. Por respeito as pessoas que ficaram comigo, eu decidi não aceitar, talvez tenha sido a decisão errada. Eu sou o chefe da federação apenas porque praticamente todos os diretores regionais são do meu dojo, com exceção de 7 ou 8. Dessa forma eu sou o líder, mas apenas por esse fato. Eu nunca quis reclamar um status oficial. De fato, algumas pessoas andam apontando o dedo para mim por causa disso como conseqüência, não existe real hierarquia dentro da federação. É o jeito como ela é, talvez algum dia isso mude. Esse sistema não me preocupa nenhum pouco. Meu verdadeiro papel é de representar a federação internacionalmente. Entretanto, também não possuo um posto oficial sobre isso. Ah sim, me desculpe, eu tenho um, eu sou membro do colégio técnico, mas eu nunca vou (risos). Eu provavelmente sou visto como um tipo de renegado, não é fácil de se lidar.

Ivan Bel: Isso é realmente surpreendente de ouvir de você!

Christian Tissier: Mas é a pura verdade! Se eu realmente quisesse ter algum poder seria muito simples, eu apenas teria que ir a diretoria da FFAAA e pedir para virar o chefe ou sairia. Mas isso é claro criaria um enorme problema.

Guillaume Erard: Vamos então finalizar com uma pergunta bem tradicional; você tem alguma mensagem para os leitores?

Christian Tissier: De fato eu tenho. Nós acabamos de falar sobre as duas federações. Na minha opinião, é uma verdadeira vergonha que existam duas federações na França, e em particular, duas federações que não se dão muito bem. Entretanto, devemos nos considerar com sorte, existem apenas duas! Em alguns países, existem 7 ou 8. Eu vou em breve para Israel e eu soube que existem 27 grupos diferentes lá para uma quantidade muito pequena de praticantes. Como você pode ver, poderia ser muito pior.

Eu gostaria que as coisas fossem muito claras, eu sempre tive o maior respeito por Tamura Sensei e acho que ele merece isso. Ele é um grande mestre que merece o pleno reconhecimento que tem. No futuro, gostria de ver mais conexão entre os grupos. Mesmo que as tecnicas e o conceito de graduação de Christian Tissier sejam diferentes, nós devemos lembrar que todos estamos praticando Aikido e compartilhamos dos mesmos princípios. Devemos aprender a nos dar bem.

Pessoalmente, algumas vezes me sinto mais próximo de algumas pessoas da FFAB [a outra Federação Francesa de Aikido] do que da minha própria. No momento, com as coisas como são, nós fazemos nosso melhor para tocar um sistema com duas cabeças. Se eu estivesse coordenando a FFAAA, eu provavelmente rodaria as coisas um pouco diferentemente mas eu não plano em fazer isso no futuro próximo. Mas nós temos a obrigação de mostrar boa vontade para fazer com que a comunicação entre os praticantes melhore e para que eles se apreciem mais uns aos outros.

Guillaume Erard: Muito obrigado Sensei, aproveite seu vôo e nos vemos em breve no tatame.

Christian Tissier: Foi o meu prazer.


 

A respeito do autor: Fundador do site em 2007, Guillaume Erard é um apaixonado pela cultura e pelas artes marciais japonesas. Após ter praticado judô durante a infância, começa o Aikido em 1996 e o Daïto-ryu Aïki-jujutsu em 2008. Atualmente tem os graus de 4o Dan em Aikido (Aikikai) e 1o Dan em Daito-ryu Aiki-jujutsu (Takumakaï). Guillaume também é apaixonado por ciência e educação e tem um doutorado em Biologia Molecular desde 2011. Vive em Tóquio e trabalha como consultor para a pesquisa médica.

Responsável pela tradução para o português: Marcelo do Nascimento faixa preta 3º dan de Aikido, pratica Aikido desde 1990, em 2012 é aceito como aluno de Christian Tisssier Shihan e deste então encontra-se sob sua supervisão técnica. Em 2012 abriu seu dojo na Cidade de Campinas/SP - Brasil (Aikido Shuhari Dojo).

Tradutor: Alexandre Krafzik